Segurança hídrica: projeto em Hydra attenuata de ETA de Piracicaba destaca-se pela eficiência e baixo custo
- O Canal da Lili

- há 4 dias
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*Por: Eliana Teixeira
Já parou para pensar em todo o processo envolvido para que a água, ao abrir uma torneira, jorre tratada? Com uma distribuição de água que chega a cerca de 98% - desconsiderando o percentual de perda antes de alcançar as torneiras - Piracicaba (SP) pode ser modelo em uso de ferramenta de monitoramento da qualidade da água para uma da população estimada em mais de 440.000 habitantes, segundo dados de 2025 do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. O município paulista é abastecido pelos rios Corumbataí (75%) e Piracicaba (25%), sendo a segurança hídrica garantida pelas ETAs – Estações de Tratamento de Água Capim Fino e Luiz de Queiroz. E uma ferramenta de monitoramento tem se destacado pela eficiência e baixo custo de manutenção. Trata-se do projeto Bioensaio em Hydra attenuata, do Semae - Serviço Municipal de Água e Esgoto de Piracicaba, que simplifica e agiliza análises laboratoriais para monitoramento da qualidade da água e ecossistemas.
O monitoramento com a Hydra attenuata, que é um pequeno animal celenterado de água doce, é mensal, exceto nos períodos de estiagem. A observação acontece ao longo de dias, iniciando na segunda prosseguindo até sexta-feira. Através das mudanças no corpo da Hydra, que pode até com efeito mais severo se desintegrar, é possível identificar toxidades de moderada a severa condição na água bruta dos mananciais, antes do tratamento. “É avaliada a condição de saúde da Hydra, para entender o tipo de toxidade na água. Quanto mais tóxica, mais severa a condição e ela pode se deteriorar. É uma ferramenta a mais no monitoramento da qualidade da água. Dá para saber que existe alguma coisa na água”, explica Ivan Canale, biólogo da Unidade de Controle de Qualidade do Semae e responsável pelo projeto desenvolvido desde fim dos anos 1990 e início dos anos 2000 na ETA Capim Fino.
Entre as toxidades encontradas nas análises da água, estão metais, poluentes orgânicos e efluentes industriais e domésticos presentes nas amostras de recursos hídricos. Para que isso ocorra, detalha o biólogo, a amostra de água bruta é coletada diretamente no manancial ou na entrada da água na ETA, levada ao laboratório do Semae em porções que são distribuídas em uma placa de plástico com pequenos poços. Em seguida, as Hydras são retiradas dos seus frascos de cultivo e mergulhadas nos poços contendo as amostras ou diluições da água dos rios.

“Os organismos (Hydra attenuata) ficam imersos nas amostras e são observados em microscópio durante cinco dias. Se a água estiver livre de contaminantes tóxicos, os organismos permanecem em sua forma normal. Se a água do rio contiver substâncias tóxicas, os organismos sofrem deformações na sua estrutura, ou seja, quanto maior o grau de toxicidade, mais severos são os efeitos, podendo chegar à desintegração e morte da Hydra”, explica Canale.
Embora o bioensaio não permita determinar qual é a substância tóxica - se é um metal pesado, pesticida, entre outros –, indica a existência de alguma substância ou o efeito combinado de diversos poluentes nocivos ao organismo e que podem gerar risco à saúde e ao meio ambiente.

SEGURANÇA HÍDRICA
De acordo com o biólogo do Semae, as informações obtidas com o bioensaio são fundamentais para orientação das ETAs em relação às condições operacionais para a produção de água potável e segura para o consumo humano. “Quando a gente começa a detectar efeito de toxidade no rio Piracicaba, a gente diminui a proporção de tratamento desse rio e aumenta a do rio Corumbataí, para que a qualidade da água se enquadre e a gente possa tratar com segurança. O nível de toxidade aumentou no Piracicaba, vou reduzir a captação nesse rio e aumentar a do Corumbataí. Também faço a análise da água misturada dos dois rios, até ajustar um ponto seguro para se tratar. Com esses dados, acionamos a parte operacional para adequação das proporções”, detalha.
Além da utilização dos organismos Hydra attenuata, ressalta Ivan Canale, são realizadas análises físicas e químicas dos recursos hídricos, conforme exigências da Portaria nº 888/2021 do Ministério da Saúde. Essa portaria dispõe sobre os procedimentos de controle e de vigilância da qualidade da água para consumo humano e seu padrão de potabilidade.
“A gente cumpri essa portaria integralmente. São feitas análises diariamente, de hora em hora, pelo operador da ETA, outras são semanais e algumas até semestrais. Todos os resultados são reportados através do Sisagua (Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano) para o Ministério da Saúde e para a Vigilância Sanitária. Tem ainda as análises microbiológicas, a partir de bactérias, coliformes, indicadores fecais de contaminação da água bruta e água tratada, diariamente, com coletas na rede em 200 pontos na cidade toda”, relata o biólogo.
FINALISTA EM PRÊMIO
Em 2025, o projeto Bioensaio em Hydra attenuata do Semae ficou entre os finalistas do 9º Prêmio Ação Pela Água, promovido pelo Consórcio das Bacias dos rios PCJ - Piracicaba, Capivari e Jundiaí. O prêmio é promovido pelo Consórcio PCJ desde o ano 2000 e é considerado o Oscar da Água, com o objetivo reconhecer, estimular e dar visibilidade às ações desenvolvidas nas Bacias PCJ por instituições públicas e privadas. De acordo com Murilo Ferreira de Sant'Anna, gerente de Comunicação do Consórcio PCJ e membro da Comissão organizadora do 9º Prêmio Ação pela Água, foram 200 inscrições, das quais 179 foram habilitadas para concorrer à premiação e foram avaliadas por 37 profissionais das mais diversas áreas, relacionadas à gestão de recursos hídricos, meio ambiente, saneamento, educação ambiental e comunicação.
“A Comissão Julgadora pontuou os projetos tendo como base os critérios: adequação ao regulamento e à temática, o conteúdo, originalidade e inovação, cumprimento dos objetivos do projeto, avaliação dos resultados, o impacto social e a possibilidade de replicação dos projetos em outras cidades e regiões. Foram definidos três finalistas por categoria. Pelo projeto do Semae ter sido finalista da categoria C - Serviços Municipais de Saneamento Básico e Empresas do Setor, pela Comissão Julgadora, entende-se que seja de impacto ambiental e de modo especial para a segurança hídrica. Acreditamos que o projeto tenha potencial de ser replicado em outras cidades por outros serviços de abastecimento”, justifica Murilo Ferreira, ao afirmar que a edição do Prêmio em caderno de Resumos tem como objetivo, disponibilizar todos os projetos inscritos sobre a temática de gestão e segurança hídrica para que mais cidades da bacia hidrográfica e até de outras regiões hidrográficas.

DESENVOLVIMENTO DO PROJETO
O projeto Bioensaio em Hydra attenuata do Semae, explica Ivan Canale, foi idealizado por meio de uma parceria com uma instituição canadense que fez o aporte financeiro, em duas fases, e o Cena/USP - Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo. Após a implantação, o projeto passou a ser comando exclusivamente pelo Semae.
“No início, a Hydra era levada até as crianças, com a Van Aquamiga (financiada pela parceria), para análise da água de ribeirões próximos a escolas. Passamos a fazer a análise da água captada na ETA, aqui no laboratório climatizado com ar-condicionado, com estufa para armazenamento da Hydra attenuata, com temperatura controlada, microscópios, água destilada – produzida aqui - e reagentes. Hoje, o custo é em torno de R$ 300,00 para compra das artêmias, que são o alimento da Hydra, que duram cerca de dois anos”, completa Ivan Canale.
Oriundas de rios de água doce da América do Norte, as Hydras attenuatas são cultivadas há 25 anos no laboratório da ETA Capim Fino e alimentam-se somente dos microcrustáceos (artêmias), que são encontrados em água salgada. “Desconheço no País, outros laboratórios que utilizam esse organismo. O Semae é a única companhia de saneamento no Brasil que utiliza esse organismo em ensaios de toxicidade para monitoramento da água para abastecimento público”, acredita Canale.
Para o biólogo, novas parcerias com universidades que queiram expandir os estudos de monitoramento com a Hydra attenuata são bem-vindas. “É um organismo que foi importado, não é encontrado na natureza. Essa espécie veio do Canadá, América do Norte. Não é achada e nem sobrevive na nossa natureza, porque a temperatura dela é 20 graus”, explica ao afirmar que o projeto pode ser modelo para que outras Estações de Tratamento de Água apliquem essa ferramenta de monitoramento.

MODELO PARA OUTRAS ETAS
Na avaliação de Cassiana Maria Reganhan Coneglian, professora doutora da Unicamp - Universidade Estadual de Campinas, da FT - Faculdade de Tecnologia do campus I de Limeira (SP) e coordenadora adjunta da CT-SAM - Câmara Técnica de Saúde Ambiental dos Comitês PCJ do biênio 2025-2027, o projeto desenvolvido no Semae é “extremamente relevante”, por permitir uma avaliação da toxicidade global da água que abastece o município de Piracicaba. “Visto que se pode avaliar os efeitos combinados de múltiplos poluentes que possam estar presentes na água bruta. O uso deste organismo-teste sensível, de fácil manutenção em laboratório e de baixo custo operacional garante elevada aplicabilidade, eficiência e reprodutibilidade”, argumenta.
Segundo Cassiana Maria, devido a elevada variedade e a complexidade de compostos orgânicos e inorgânicos que atingem os corpos hídricos, nem sempre é possível quantificar e estabelecer valores máximos de concentração permitidas com base em análises físicas e químicas da água. “Desta forma, o monitoramento da qualidade da água que incorpore a avaliação dos efeitos tóxicos de substâncias químicas, e de outras fontes antropogênicas sobre os ecossistemas aquáticos, é de extrema importância”, avalia.
Para a coordenadora adjunta da CT-SAM, o projeto Bioensaio em Hydra attenuata do Semae é importante do ponto de vista do monitoramento da qualidade da água para o abastecimento público, mas o fundamental são as ações de prevenção da poluição em mananciais de abastecimento. “A contaminação dos rios compromete os usos múltiplos da água, afetando inúmeras atividades econômicas dependentes deste recurso, a recreação, a irrigação e o abastecimento de água para a população. O tratamento de águas residuárias e industriais é uma medida fundamental para prevenir riscos à saúde humana, proteger os ecossistemas aquáticos e assegurar a disponibilidade de água de qualidade para as populações que dependem desses mananciais”, analisa.
Cassiana Maria destaca a relevância do Plano de Segurança da Água, que é um instrumento de gestão preventiva, com o objetivo de garantir a qualidade da água destinada ao consumo humano, além de preconizar a avaliação de riscos e perigos desde o manancial até o ponto de consumo. “Nota-se que a garantia de água segura começa com ações no manancial, assegurando o fornecimento contínuo de água potável, protegendo a saúde pública e a confiança da população no sistema de abastecimento”, argumenta.
Na avaliação da coordenadora adjunta da CT-SAM, o projeto do Semae poderia ser modelo para outras Estações de Tratamento de Água ou mesmo fonte de pesquisa universitária para expansão. “O projeto do Semae é de grande relevância, contribuindo nas ações para a segurança da água, pois a distribuição de água segura é a garantia de saúde da população. Além disso, o ensaio sendo preditivo de substâncias tóxicas na água bruta é uma ferramenta importante para a padronização e o aprimoramento das práticas de controle da qualidade da água”, afirma.
Os estudos com Hydra atteniata, ressalta Cassiana Maria, têm sido objeto de muitas pesquisas científicas, com elevado potencial no monitoramento de amostras ambientais e de variadas substâncias tóxicas. “Entretanto, o mesmo pode ser ainda mais utilizado em pesquisas que possibilitem a expansão do conhecimento científico, o desenvolvimento de novas metodologias de monitoramento e o fortalecimento da integração entre gestão pública e meio acadêmico”, acredita.






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