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Sistema Libras On-line permite comunicação dos surdos na rede de saúde em Piracicaba


Tecnologia lançada no Mário Dedini chegará a todas as unidades de saúde - Imagem: Davi Negri

A comunidade surda de Piracicaba comemora a chegada de uma ferramenta que irá colaborar de forma efetiva na quebra de barreiras de comunicação na rede municipal de saúde. Trata-se do sistema Libras on-line, disponibilizado pela Secretaria Municipal de Saúde, após o diálogo entre o grupo Libras Piracicaba e Região e o gabinete do vereador Gilmar Rotta (CID). Lançada nessa quarta-feira (10), no PSF Mário Dedini 1, a tecnologia estará disponível até o fim do mês nas 72 unidades da atenção básica, nas quatro UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) e no COT (Centro de Ortopedia e Traumatologia).


Na prática, o sistema Libras On-line permitirá a qualquer pessoa ter acesso a um intérprete de Língua Brasileira de Sinais, em qualquer dia da semana, por 24 horas, quando recorrer a um atendimento nas unidades de saúde do município, tanto no atendimento da recepção quanto com nos consultórios médicos ou com os demais profissionais de saúde. Para isso, basta posicionar a câmera do celular em frente ao código de barras bidimensional ––conhecido como QR-Code–– e o intérprete fará a mediação entre o surdo e o profissional de saúde.


Piracicaba é a primeira cidade do interior a adotar a tecnologia, implantada, até então, apenas na capital paulista, garante Luis Albino, chefe do Setor de Gestão da Informação da Prefeitura de Piracicaba. Segundo ele, a empresa vencedora da licitação para realizar o serviço é a Icom, que por meio de uma vídeo-chamada triangula a comunicação entre o intérprete, o surdo e o ouvinte. A central conta com 60 profissionais para realizar o serviço. “Com a comunicação facilitada, as demandas serão atendidas com maior agilidade”, diz Albino.


Gilmar Rotta lembra que a Câmara abrigou, em setembro de 2019, o Encontro dos Surdos de Piracicaba. Desde então, uma série de iniciativas ––abraçadas pelo projeto Câmara Inclusiva–– foram desenvolvidas no âmbito do Legislativo Piracicabano, além de reuniões mediadas pelo vereador com diferentes secretarias municipais. “Nem sempre a pessoa surda tem alguém para acompanha-la à unidade de saúde. Além disso, eram frequentes os relatos de erro de interpretação, na comunicação entre paciente e profissional. Esse sistema representa um marco na saúde local e deve ser visto como uma vitória do Grupo Libras Piracicaba e de toda a comunidade surda”, declara.


A professora de surdos Beatriz Aparecida dos Reis Turetta, do Grupo Libras Piracicaba e Região, conta que a ideia foi apresentada ao vereador Gilmar Rotta no início do segundo semestre do ano passado. Já em julho de 2020, o vereador agendou uma reunião com o ex-secretário de Saúde, Pedro Mello. “A pandemia intensificou a demanda da comunidade surda, que ficou à parte das informações sobre o coronavírus. Manifestei essa preocupação ao Gilmar Rotta, pois há vários anos conversávamos sobre a tentativa de criar uma Central de Intérpretes, que era a proposta inicial. O município conseguiu abraçar a opção do sistema Libras On-line. Foi o melhor que poderia ter acontecido, já que teremos intérpretes todos os dias da semana, 24 horas, em todas as unidades”, diz.


O uso da ferramenta em Piracicaba ocorreu pela primeira vez pelos surdos David Marques e Janaína Nascimento Ribeiro Gonçalves. O diálogo com a central da Icon foi acompanhado ainda pelo secretário Filemon Silvano e o subsecretário Augusto Muzilli Junior, ambos responsáveis pela Secretaria Municipal de Saúde. Segundo Silvano, o sistema “permitirá aos surdos o atendimento que lhe são jus e, com isso, conseguiremos melhorar suas vidas”, declarou ele, ao manifestar ainda a intenção de implementar a tecnologia em outros setores do Executivo, como a educação.


Morador da região, o vereador Gustavo Pompeo (Avante) esteve na unidade para acompanhar o lançamento. Ele lembrou que uma das maiores dificuldades da comunidade surda é também no mercado de trabalho e disse que uma iniciativa desse porte deveria ocorrer em todo o país. Para Pompeo, sobre o atendimento da saúde é preciso lembrar que “nem sempre a pessoa surda é alfabetizada, por isso não consegue escrever, o que impede até uma consulta”.


O analista de informática Fernando Gozetto participou das etapas do sistema. Um dos trabalhos foi a implantação de internet de alta velocidade em todas as unidades de saúde. “Primeiro construímos a base, para dar acesso adequado de internet. Estamos agora agregando outros serviços, como prontuário eletrônico, que deve ser expandido a quase todas as unidades até o final do ano”, explica.


Conforme Wander Viana Santos, coordenador do Comdef (Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência), as demandas desse público nem sempre são atendidas e, por esse motivo, iniciativas como o Libras On-line devem ser vistas como avanço sob os aspectos de inclusão, respeito e cidadania. “É uma luta diária. As reivindicações avançam, mas às vezes devagar. As pessoas com deficiência precisam de acesso aos serviços públicos, em especial na saúde”, detalha, ao citar que, entre problemas recorrentes da falta de comunicação entre comunidade surda e profissionais da saúde estavam casos de erro em receitas médicas ou diagnóstico das doenças.



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