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Psiquiatra alerta à importância da regulação das emoções como medida de redução do feminicídio


Brasil chegou ao recorde de 1 mulher assassinada a cada 6 horas no País, em 2022 - Imagem: Ilustrativa/Freepik

Se você fizer uma simples busca pela palavra "feminicídio" na aba de notícias do Google, vai encontrar mais de 20 matérias das últimas 24 horas divulgando casos de assassinato ou tentativa de assassinato contra mulheres espalhados pelo Brasil. No final do ano passado, o Monitor da Violência (parceria entre o G1, o Núcleo de Estudos da Violência da USP - Universidade de São Paulo e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública) divulgou números que assustaram a todos: o Brasil chegou ao recorde de uma mulher assassinada a cada 6 horas no País, em 2022.



Em meio a esse cenário insustentável, dentre tantas medidas a serem tomadas, uma delas tem a ver com dar atenção a regulação das emoções, visto que a maioria dos casos de feminicídio é motivada pela raiva.



Na visão de Julia Trindade, psiquiatra membro da Associação Brasileira de Psiquiatria, apesar de ser um sentimento comum a todas as pessoas, a raiva pode gerar comportamentos violentos, que, por sua vez, poderiam ser evitados, se houvesse conhecimento da sociedade sobre a possibilidade de modular as próprias emoções. “A raiva funciona como um mecanismo de autodefesa, que o cérebro dispara ao detectar o que acredita ser um perigo. Isso nos indica que sentir raiva não é algo ruim para o corpo, mas o que fazemos quando estamos com raiva é o que precisamos ficar atentos”, alerta.


A especialista cita um estudo de 2020 da publicação científica global JIV - Journal of Interpersonal Violence, dedicada ao estudo e tratamento de vítimas e perpetradores de violência interpessoal, entendendo as causas, efeitos, tratamentos e prevenção. Em tradução livre, o estudo trata de "Traços relacionados à raiva e estratégias de regulação emocional em perpetradores de violência por parceiro íntimo".


Segundo a psiquiatra, os resultados sugerem que os agressores apresentam altos níveis de raiva, incluindo irritabilidade, ressentimento e hostilidade, além de dificuldades em regular suas emoções negativas. "Apesar de não se concentrar exclusivamente no feminicídio, o estudo mostra como é importante compreender a relação entre traços de raiva e comportamentos violentos e enfatiza a necessidade de intervenções eficazes para ajudar os agressores a lidar com suas emoções", avalia a psiquiatra.


Atenção a sinais de que um homem pode ficar violento

Diversos tipos de transtornos mentais podem levar à violência, mas Julia Trindade chama a atenção para comportamentos que podem ser observados, como a irritabilidade excessiva frequente. "Isso pode revelar condições como o Transtorno Explosivo Intermitente (TEI), que é caracterizado por episódios de agressividade explosiva fora de proporção, acompanhados de aumento de tensão e irritabilidade antes do episódio", exemplifica.


Da mesma forma, é comum a associação do uso excessivo de álcool e drogas à potencialização da violência. “O álcool pode diminuir a atividade inibitória do cérebro, o que pode levar a um aumento da impulsividade e diminuição da capacidade de controlar comportamentos agressivos. E pode também afetar a percepção sobre as situações sociais e emocionais, ou seja, a pessoa acha que tudo é uma ameaça ou provocação”, explica a médica.


Um longo caminho pela frente

Diante do argumento da raiva como maior propulsor da violência, ao olhar para o futuro, a psiquiatra considera que o ideal seria haver uma disciplina escolar de Habilidades de Regulação Emocional, que ensinasse a lidar com sentimentos como a raiva, algo desafiador, mas que pode ser controlado e reduzido. “Precisamos ajudar as pessoas, principalmente os homens, a desenvolverem habilidades para lidar com a raiva de maneira mais saudável e construtiva”. Para ela, ensinar os homens a expressarem seus sentimentos de maneira clara e assertiva, sem serem agressivos ou violentos, ajudando-os a identificar e expressar suas necessidades e desejos de forma clara e respeitosa, está no mundo ideal da cura desse tipo de problema social.


No mesmo tom, a psiquiatra entende que se a raiva estiver prejudicando a qualidade de vida ou relacionamentos, é preciso encorajar os homens a buscarem ajuda profissional e ajudá-los a reverter a ideia ainda comum de que buscar ajuda demonstra fraqueza, fragilidade. "Ao contrário, trata-se de buscar uma melhor qualidade de vida, ao aprender a lidar com as emoções", destaca Julia.


Julia Trindade, psiquiatra membro da Associação Brasileira de Psiquiatria fala sobre emoções, raiva e feminicídio - Imagem: Divulgação

O cuidado com as mulheres, traumas e denúncias

A psiquiatra alerta para o que já sabe, mas que pouco mudou. "Há muitas razões pelas quais as mulheres podem sentir vergonha ou relutância em denunciar a violência de gênero, entre elas a culpa. Muitas vezes, essa mulher se culpa por ser vítima de violência, mesmo que não tenha feito nada para provocar ou justificar a agressão", pontua Julia.


Segundo a médica, o medo da retaliação, de denunciar e acabar agravando a situação paralisa a maioria das mulheres nessa situação. "Além disso, muitas mulheres dependem financeiramente de seus agressores e temem perder seu sustento ou sua moradia se denunciarem a violência. E precisamos ressaltar que ainda há muito estigma, as mulheres têm medo de não serem levadas a sério e não receberem o apoio ao fazer a denúncia", arremata a psiquiatra.


Julia Trindade reforça que é fundamental que a sociedade ofereça apoio e assistência às mulheres que denunciam a violência, garantindo que elas sejam ouvidas, protegidas e tratadas com respeito e dignidade. "É necessário oferecer suporte e atendimento psicológico e médico às mulheres", completa.


Fora isso, o assunto feminicídio gera efeitos pesados na saúde mental das mulheres que sobreviveram a ataques feminicidas ou que tenham presenciado esse tipo de violência. Desenvolver o TEPT - Transtorno de Estresse Pós-Traumático é bastante comum e precisa ser vigiado. "A pessoa não consegue evitar de reviver a situação e pode desenvolver outros transtornos associados, que podem durar anos e afetar profundamente a qualidade de vida", diz a psiquiatra.


Entre os sintomas a serem observados, Julia cita: flashbacks, pesadelos, evitamento de lugares ou situações que possam lembrar o evento traumático, hipervigilância (estar sempre em alerta), alterações no humor de forma negativa (que chega a ser uma incapacidade de sentir coisas boas). "Pessoas que se sentirem assim por mais de um mês, precisam buscar tratamento médico", recomenda.

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