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Pediatra orienta como conversar e ensinar as crianças sobre morte e luto


Parte do ciclo da vida, o luto pode ser difícil, mas precisa ser abordado com naturalidade - Imagem: Pixabay

A partida precoce do ator Paulo Gustavo, vítima de Covid-19, trouxe luz a um dilema enfrentado por muitas famílias: como falar sobre morte com as crianças. Por mais desconfortável que possa ser, é essencial entender e transmitir aos pequenos a naturalidade desse momento, que é parte do ciclo da vida. "A conversa deveria tomar lugar de forma natural, gradual e ilustrativa e não apenas mediante o evento em si", diz a médica Francielle Tosatti, pediatra da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria) e especialista em emergências pediátricas pelo Instituto Israelita Albert Einstein.


Francielle Tosatti lembra que a maioria das crianças já teve, de certa forma, algum contato com a morte no dia a dia, ao ver um inseto morto, uma flor murcha ou o tema em filmes, como Rei Leão, Bambi, Frozen e outros. E a pandemia deixou o tema mais próximo e palpável por conta das informações na mídia ou mesmo por conta de familiares e conhecidos que tenham partido por conta da doença. "Por isso, tão importante quanto falar sobre morte é entender que a criança sente o luto, de acordo com sua idade e maturidade e cada criança irá reagir de uma forma a ausência, ao clima da casa e as emoções dos familiares", conta a pediatra.


médica Francielle Tosatti é pediatra da SBP e especialista em emergências pediátricas pelo Instituto Israelita Albert Einstein - Imagem: Divulgação

O luto por idade - 0 a 2 anos

Até os dois anos a criança percebe a morte como uma ausência, sendo fundamental manter a proximidade com os familiares sobreviventes e que outro cuidador assuma as responsabilidades, no caso de perda de um cuidador próximo, como pais ou avós, sempre mantendo a constância da rotina.


3 a 6 anos

A criança começa a assimilar a morte, mas ainda de uma forma muito fantasiosa. "É importante ter muito cuidado com o uso de metáforas como ‘dormiu para sempre’ ou ‘fez uma longa viagem’, pois podem gerar fobias na hora de dormir ou viajar, além de não contribuir com a assimilação da finitude do evento", explica a pediatra.


A visão egocêntrica comum nessa faixa etária pode levar a criança a se sentir culpada, adotar comportamentos hostis ou ter regressões de comportamento. Reafirmar constantemente que a criança não teve culpa, acolher e ajudá-la a expressar seus sentimentos fazem parte do suporte que ela precisa e que não só vai curar mas ajudar a entender o luto. De acordo com a pediatra, expressões artísticas como desenhos, tabelas de sentimentos e álbuns de lembranças são facilitadores desse processo.


9 anos

Por volta dessa idade a criança começa a entender a morte como algo definitivo e irreversível e pode requisitar meios concretos para entender a morte, como participação do funeral. Essa é uma possibilidade que fica sujeita à decisão da família, dos seus valores e da sua religiosidade, segundo a médica Francielle. "É importante que seja uma opção para a criança e não uma imposição. Caso a decisão seja levar a criança, e ela deseje ir, explique como vai ser antes e esteja pronto para trazê-la de volta para casa se ela não quiser ficar", orienta.


E como abordar a Covid-19?

Se algum membro da família ou amigo próximo adoecer, é importante tentar incluir a criança no processo desde o começo, para que ela assimile uma cronologia dos acontecimentos. Pais e cuidadores devem estar preparados para responder suas perguntas (que podem ser repetitivas), de forma clara e sem detalhes desnecessários.


"Abra espaço para que ela expresse seus sentimentos (o lúdico é um excelente facilitador) e ajude-a a entender o que está acontecendo", ensina Francielle. "Mantenha a criança informada da evolução, em casos de internações, havendo a possibilidade de uma televisita pergunte a criança se ela deseja participar e antecipe para ela o que ela irá ver: estado de saúde, emagrecimento, dispositivos que possam estar conectados ao corpo etc. Assegure-a de que se ela não quiser ver está tudo bem e que você dará notícias", completa.


Se houver falecimento de um ente querido, a criança deverá ser comunicada assim que possível por um cuidador com quem ela tenha vínculo afetivo e em quem confie. "Essa dolorosa realidade será suportável com o afeto, o amor e o respeito dos familiares", enfatiza a médica.


Também é importante que o adulto não esconda ou falseie suas próprias emoções. Está tudo bem dizer "estou chorando porque tenho saudades", segundo a médica, pois assim, essa vivência ajudará a criança a entender que entrar em contato com sentimentos dolorosos é possível e que a medida que o amor dos nossos queridos nos conforta, as emoções se transformam em lembranças saudosas. "Uma das homenagens mais lindas, na minha opinião, e que costuma ser bem assimilada por crianças é plantar uma rosa ou outra flor para o ente querido, explicando que ele nunca será esquecido e estará sempre no seu coração", sugere.



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