• O Canal da Lili

O vale da fome e o direito à alimentação


Marcelo Mazeta Lucas é coordenador Setorial Estadual de SAN do PT/Paulista e da Proteção Social da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social de Araraquara (SP) - Imagem: Divulgação

*Texto: Marcelo Mazeta Lucas


O aumento da pobreza e de pessoas sem acesso à alimentação, e alimentação saudável com qualidade trazidos pela pandemia de Covid-19 tornou ainda mais desafiador se atingir a meta global estabelecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) de zerar a fome no mundo até 2030.


Neste 16 de outubro celebramos o Dia Mundial da Alimentação e se faz necessário uma séria e profunda reflexão sobre os impactos causados pela pandemia, assim como também pela fome e miséria.


No Brasil, este impacto está ligado diretamente ao número crescente e sem precedentes de desamparados da proteção social, assistência alimentar, famílias com renda zero, desempregados, situação agravada pela desvalorização real do salário mínimo, a ausência de programas sociais emancipatórios, o que tem gerado milhões de famílias desamparadas e famintas por toda a parte. Outro fator determinante é o aumento dos preços dos alimentos e a alta da inflação, isso tudo gerou mais de 44% de brasileiros em situação de insegurança alimentar, segundo a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional e mais de 20 milhões em situação de extrema pobreza.


Atualmente 74 milhões de brasileiros tem medo de passar fome. Isso num dos países com grande potencial de produção diversificada de alimentos que poderiam ser mais saudáveis para estarem na mesa da população brasileira. No entanto a realidade é outra. Pessoas estão se sujeitando a situações de subemprego, análogas ao trabalho escravo, houve o aumento avassalador da prostituição e da criminalidade principalmente nas periferias e nos bolsões de pobreza e miséria, o que fere diretamente a dignidade humana de mulheres, homens, crianças, adolescentes, jovens e idosos.




A inversão da pauta e da agenda política nos últimos anos e a sinalização da falta de prioridade a atenção voltada ao combate às desigualdades sociais tem nos levado ao vale da fome.

Só no ano passado, a FAO estima que, em todo o mundo, a fome atingiu um contingente entre 720 milhões e 811 milhões de pessoas, 161 milhões a mais do que em 2019.

É necessário transformar os sistemas alimentares. Essa transformação passa pela diversificação da produção - sem deixar de reconhecer a importância, retomada e fortalecimento de estratégias e políticas públicas que promovam o chamado sistemas agroalimentares de circuito curto, que reduzem a distância entre a produção e o consumo e acima de tudo ofereça alimentos à preço justo.

Vivemos uma situação vergonhosa com a aprovação da Emenda Constitucional 95 que estabeleceu o teto dos gastos e vem desmontando toda estrutura existente de proteção e seguridade social. Realidade presente nas estatísticas e ruas do nosso país. A ausência e desamparo no que tange a transferência de renda por meio de programas sociais governamentais são fundamentais e urgentes para que a população tenha acesso ao consumo de alimentos em quantidade e qualidade suficientes para o sustento e desenvolvimento humano.


É urgente o equilíbrio entre o urbano e o rural que gerem menor pegada de carbono, menor pegada hídrica e mais sustentabilidade. Esse é um grande desafio: transformar os sistemas alimentares no mundo e sobretudo muito mais acoplados às realidades dos diferentes países. O ecossistema tem esgotado seus limites e a natureza clama por um urgente equilíbrio que depende apenas e exclusivamente das ações humanas.


O tema do Dia Mundial da Alimentação deste ano estabelecido pela FAO é "as nossas ações são o nosso futuro". Melhor produção, nutrição, ambiente e qualidade de vida. Este é o grande desafio. Estimular transformações em sistemas agroalimentares mais eficientes, inclusivos, resilientes e sustentáveis que tornam os alimentos saudáveis acessíveis a todas as pessoas e limitam os impactos ambientais e climáticos adversos.

Que possamos ter atitudes conscientes desde a produção dos alimentos até o consumo com equidade e justiça social.


*Marcelo Mazeta Lucas é doutorando e mestre em Desenvolvimento Territorial e Meio Ambiente pela Uniara; é coordenador Setorial Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional do PT/Paulista e da Proteção Social da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social de Araraquara- SP; sócio do Instituto Fome Zero e membro do GT BR Soberania Alimentar.



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