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Avanços da cirurgia robótica ortopédica no Brasil


Alessandro Zorzi é ortopedista, pesquisador e professor universitário - Imagem: Matheus Campos

*Texto: Alessandro Zorzi


Cirurgia é a especialidade médica que se dedica ao tratamento de doenças e traumatismos por meio de processos operatórios manuais e instrumentais. Cirurgia também se refere aos tratamentos que utilizam esses processos; intervenção cirúrgica, operação (Dicionário Oxford). Algo que, até o ano 2000, era considerado competência de médicos especialistas com grande habilidade manual.


No caso da cirurgia ortopédica, além da habilidade manual, espera-se que o cirurgião tenha excelente capacidade de orientação espacial tridimensional, para atingir o correto alinhamento e posicionamento de ossos e implantes. Se você fosse ao hospital para um procedimento cirúrgico, esperaria ser atendido por um cirurgião humano. Até que os robôs entraram na sala de cirurgia.


O que é cirurgia robótica?

A cirurgia robótica, como o próprio nome sugere, é uma cirurgia realizada por um robô. É uma cirurgia muitas vezes minimamente invasiva, o que significa que é capaz de realizar técnicas cirúrgicas complicadas por meio de pequenas incisões, deixando muito pouco tecido cicatricial para trás. O robô é a ferramenta aqui, assim como um bisturi seria uma ferramenta para um cirurgião habilidoso. O cirurgião se sentará nos controles, guiando os instrumentos cirúrgicos nas extremidades dos braços do robô.


O termo "robô" foi concebido por Joseph Capek, em 1921, em sua peça "Rossom’s Universal Robots", que originalmente veio da palavra tcheca "robota", que significa "trabalho". O termo foi rapidamente expandido para refletir uma tarefa repetitiva orientada para a máquina. Assistência computacional, robótica, automação e realidade virtual são conceitos bastante novos e, mais recentemente, têm sido aplicados na assistência à saúde. As últimas décadas testemunharam crescimento exponencial da tecnologia médica, um dos eventos mais marcantes sendo a plataforma robótica aplicada à cirurgia.


O Sistema Cirúrgico da Vinci, fabricado pela Intuitive Surgical, foi a primeira plataforma de cirurgia assistida por robô a ganhar a aprovação do FDA e foi inicialmente usado para cirurgia laparoscópica de vesícula biliar e doença de refluxo. Desde então, já foi utilizado em mais de 6 milhões de procedimentos, desde cirurgia geral até cirurgias cardíacas, ginecológicas e urológicas (1).


Cirurgia robótica na Ortopedia

Desde que o FDA aprovou o primeiro sistema de cirurgia robótica em 2000, a cirurgia robótica tem estendido seu alcance a uma variedade de especialidades, incluindo a Ortopedia e Traumatologia. Várias empresas de dispositivos médicos desenvolveram plataformas de cirurgia assistida por robôs especificamente voltadas para as cirurgias ortopédicas, especialmente artroplastias de joelho (2).


1) Zimmer Biomet: ROSA

A Zimmer Biomet ganhou recentemente a aprovação da FDA para o ROSA. A plataforma de joelho ROSA inclui ferramentas de planejamento pré-operatório 3D e dados em tempo real sobre a anatomia dos tecidos e ossos durante os procedimentos. Isso pode melhorar a precisão do corte ósseo e resultar em uma análise mais precisa da amplitude de movimento, o que pode ajudar as próteses de joelho a ficarem mais parecidas com um joelho natural. O ROSA é o robô mais usado atualmente para assistir cirurgias de prótese de joelho.


2) Smith & Nephew: Navio / Cori

A Smith & Nephew já possui um sistema cirúrgico robótico portátil no mercado. Recentemente, ela apresentou um novo software para esse sistema, conhecido como Navio 7.0. A Smith & Nephew também está trabalhando em uma nova plataforma de robótica aprimorada que deve incorporar realidade aumentada, braços robóticos autônomos e tecnologias de aprendizado de máquina. Essa plataforma é chamada Cori e deverá substituir o sistema Navio.


3) Johnson & Johnson Depuy Synthes: Velys

A Johnson & Johnson adquiriu recentemente uma empresa francesa de cirurgia assistida por robôs. Agora está trabalhando para expandir essa tecnologia de próteses totais e parciais do joelho para outras cirurgias ortopédicas. Lançou o sistema Velys.


4) Stryker: MAKO

O sistema assistido por robô Mako desenvolve um modelo 3D da articulação, que os cirurgiões usam para avaliar a estrutura óssea, o alinhamento da articulação e o tecido circundante. Ele fornece dados de amplitude de movimento em tempo real durante a cirurgia e usa um braço robótico para remover o osso e a cartilagem do joelho e colocar o implante.


Cirurgia robótica ortopédica no Brasil

Em dezembro de 2020 foi realizada a primeira artroplastia total de joelho assistida por robô. A cirurgia foi realizada em São Paulo utilizando o sistema ROSA da Zimmer. ROSA é o acrônimo de "RObotic Surgery Assistant". Apesar do nome, o robô é branco e azul.


Já existem instalados no Brasil seis robôs ROSA, nas cidades de São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte e Salvador. A intenção inicial é instalar 13 robôs no País nesta "primeira onda", segundo informações não oficiais. Na sequência poderão ser instalados outros mais.


Para realizar a prótese com o robô, não basta que o médico tenha residência médica em Ortopedia e Traumatologia. É necessário ter formação adicional em Cirurgia do Joelho e também realizar um rigoroso processo de treinamento e certificação, que inclui aulas, treinamento com o software que comanda o robô e finalmente o treinamento em simulador com o próprio robô. Vencidas estas três etapas, o cirurgião estará apto a agendar e realizar a cirurgia robótica. Mas será acompanhado durante suas dez primeiras cirurgias até receber a certificação definitiva.


No Hospital Albert Einstein ainda existe uma prova que deve ser realizada para verificar o nível de conhecimento e aprendizado adquirido durante as etapas do treinamento.


Vantagens da cirurgia robótica

Embora a cirurgia robótica ainda seja relativamente nova para muitas aplicações, dados clínicos recentes demonstraram vários benefícios, incluindo:


- Maior precisão na colocação de implantes;

- Menor quantidade de materiais e guias necessários para implantar a prótese. Isso acarreta redução do custo com esterilização, processamento e transporte de materiais;

- Tempo reduzido de internação hospitalar devido à natureza menos invasiva das cirurgias;

- Menos cirurgias de revisão e readmissões reduzidas;

- Dor e cicatrizes reduzidas;

- Exposição à radiação reduzida;

- Taxas de infecção mais baixas.

- Quais as desvantagens da cirurgia robótica


A cirurgia robótica é uma proposta que adiciona investimentos. Mas, não tanto. O aporte de instalação de um sistema de cirurgia robótica pode aumentar o custo de um procedimento cirúrgico. A manutenção dos robôs cirúrgicos é cara e sua operação requer treinamento adicional. Apesar disso, a prótese de joelho da Zimmer com o robô ROSA vem sendo realizada no Brasil com cobertura por vários convênios. Dependendo do hospital, o paciente precisa arcar com um desembolso adicional apenas dos materiais descartáveis utilizados pelo robô.


Um dos problemas mais significativos da cirurgia robótica é a questão da latência - o tempo que o robô leva para executar os comandos do cirurgião. Demora alguns minutos para o computador se comunicar com os braços robóticos. Embora isso não seja um problema para cirurgias de rotina, torna difícil para os cirurgiões responderem rapidamente aos problemas que ocorrem durante a operação. No caso do ROSA esse problema não existe, porque o robô auxilia o cirurgião, mas não realiza a cirurgia de forma autônoma.


Cirurgia robótica nos próximos anos

Com a experiência e a tecnologia certas, as vantagens podem superar as desvantagens. Mesmo que o custo do procedimento retarde a integração em hospitais, as cirurgias com máquinas robóticas continuarão a se tornar mais comuns, permitindo cirurgias mais precisas e com maior acurácia. Principalmente na Ortopedia, onde a precisão no posicionamento dos implantes influi diretamente no resultado das cirurgias. O uso do robô permite que o cirurgião não conte apenas com sua habilidade e noção espacial. Isso aumenta a segurança do procedimento para o paciente. O robô não irá substituir o cirurgião, mas irá auxilia-lo para que o resultado cirúrgico seja o melhor possível.


*Alessandro Rozim Zorzi ortopedista e pesquisador; professor de Medicina na Faculdade São Leopoldo Mandic em Campinas-SP; membro do Comitê de Medicina Regenerativa da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia; Comitê Musculoesquelético da Federação Mundial de Hemofilia; Sociedade Brasileira de Cirurgia do Joelho; Sociedad Latinoamericana de Rodilla e Desporto, International Society of Arthroscopy, Knee Surgery and Orthopedic Sports Medicine e da International Cartilage Regeneration and Joint Preservation Society.

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