• Eliana Teixeira

Além do Outubro Rosa: a jornalista Daniele Ricci relata a superação de dois cânceres


A jornalista Daniele Ricci, em 2011, enfrentou um câncer no ovário e outro no endométrio - Imagem: Arquivo pessoal

Movimento internacional iniciado na década de 90, nos Estados Unidos, somente com alguns estados norte-americanos realizando campanhas isoladas sobre o tema, o Outubro Rosa trata-se da conscientização da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de mama, com ações durante todo o 10º mês do ano. A incidência no Brasil, de acordo com dados de 2019 do Inca (Instituto Nacional de Câncer), órgão do Ministério da Saúde, é de um homem doente a cada 100 casos de câncer de mama, sendo que para 2021 foram estimados 66.280 casos novos, o que representa uma taxa de 43,74 casos por 100 mil mulheres.


Mas é importante lembrar da necessidade de se fazer exames preventivos – mamografia e autoexame das mamas -, além do mês de outubro, considerando também a relevância de outros exames para diagnósticos precoces, bem como tratamentos eficazes para outros tipos de cânceres e demais patologias. Em Destaque desta semana, O Canal da Lili traz o relato da jornalista Daniele Ricci, 48 anos, que em 2011 enfrentou um câncer no ovário e outro no endométrio.


Formada em Comunicação Social, além de ser gestora socioambiental, podcaster e escritora, a comunicativa Dani Ricci, como é conhecida, também tem formação em Magistério e foi professora por 10 anos, com especialização em Educação Infantil e Língua Portuguesa. A piracicabana Dani Ricci já atuou como repórter e assessora de imprensa por quase 25 anos e, atualmente, dedica-se à consultoria e assessoria em Comunicação, além de produção de conteúdo, atendendo a empresas e empreendedores individuais, além de desenvolver trabalhos voluntários, como diretora de Comunicação no Lar Franciscano de Piracicaba. Descobrir-se com dois cânceres, não foi nada fácil para alguém tão ativa como a jornalista. Confira a entrevista:


Como lidou, no primeiro momento, com o diagnóstico da doença? Como foi seu tratamento?

Em 2011, depois de notar inchaços em meu abdômen e sentir dores incomuns, descobri dois cânceres: um no ovário e outro no endométrio. Foi uma grande surpresa, porque meus exames ginecológicos estavam normais até quatro meses antes. Claro que fiquei triste, mas acreditava que faria melhor se dedicasse meu tempo e sentimentos a buscar a cura. Isso se chama resiliência. E foi assim que conduzi, encarando com força, fé e coragem uma situação que me parecia distante, pois não tinha casos na minha família – a hereditariedade é responsável por apenas 30% da incidência. Fiz a histerectomia total para retirada dos tumores – o do ovário tinha 31 centímetros, mas não apresentava metástase - e iniciei tratamento com duração de um ano e dois meses (quimio, radio e braquioterapia). Nos anos seguintes enfrentei outros revezes, tive uma parada cardíaca, passei por cirurgia de hérnia incisional e tive uma embolia pulmonar. Em 2015, surgiu um novo tumor na região cervical (pescoço), mas foi feita apenas uma pequena cirurgia e não houve necessidade de terapias, apenas tratamento medicamentoso. Fiquei sete anos acompanhando a evolução positiva do meu tratamento a cada três meses. Há dois anos, a periodicidade médica e de exames passou a seis meses e, este ano, tive alta, o que significa que o acompanhamento agora é anual. Todo mundo deve ir ao médico ao menos uma vez ao ano, porque faz parte da rotina de autocuidados e de amor próprio. Conhecer o funcionamento do meu organismo, dar atenção às limitações do meu corpo, além de procurar rapidamente atendimento médico para investigar o que eu não compreendia, foram fundamentais para o diagnóstico precoce, o tratamento certeiro e para continuar viva e saudável. As pessoas não devem ter medo de conhecer a verdade sobre a própria saúde, pois pode ser a diferença entre a retomada de uma vida plena e o sofrimento.


O que muda na vida de uma mulher, após o enfrentamento de um câncer?

É um período de muito aprendizado. Eu trabalhava muito, muitas vezes sem tempo para mim e veio a vida me alertar com sua astúcia e selecionar esse tempo para que eu me desse mais atenção. Muitas questões foram ressignificadas e para cada pessoa é de um jeito, mas acredito que para todas ocorre uma transformação. A experiência de uma doença é sempre muito individual e até mesmo solitária, pois somente quem está doente sabe o que sente. O câncer faz a gente pensar muito, porque nos deparamos com conceitos como o medo, o sofrimento, a vaidade, a feminilidade/ masculinidade, a possibilidade da morte. Também nos deparamos com preconceitos. Meu tipo de tratamento me levou a perder bastante cabelos na primeira quimioterapia, depois precisou ser modificado (porque sofri uma parada cardíaca por alergia à fórmula da quimio) e não fiquei careca. Houve quem achasse que eu não tinha câncer por não ser careca. Cuidado com os mitos e preconceitos, porque são como a língua afiada: ferem e atrapalham. Nem todo mundo que tem câncer fica careca ou perde pelos, câncer não é transmissível, nem sempre a pessoa passa mal com a quimioterapia, nem sempre é preciso fazer cirurgias ou terapias fortes e, o principal, não é uma maldição. Com o tempo, a rotina é retomada, as coisas vão se normalizando e a vida continua exigindo resiliência de nós. Nem sempre eu me lembrava e, às vezes, ainda me esqueço de fazer o autoexame de mama, que é um caminho fácil e barato para adiantarmos um possível diagnóstico. Falando diretamente com as mulheres, somos muito parecidas, por isso o Outubro Rosa é tão importante para fortalecermos nossa consciência sobre nossas necessidades. Rosa é a cor do amor, do autocuidado, da compaixão. Uma mistura do vermelho – que remete à atenção – com o branco, que traz suavidade. Atenção com leveza, é o que quem tem câncer precisa. Seja presente e leve, independente de que lado do problema você esteja.


Embora não tenha tido câncer de mama, qual mensagem daria às mulheres neste Outubro Rosa que está se encerrando?

É importante salientar que o câncer de mama, principal foco do Outubro Rosa, continua sendo a primeira causa de morte por câncer na população feminina em todas as regiões do Brasil, exceto na região Norte, onde o câncer do colo do útero ocupa o primeiro lugar. E também é importante saber que o câncer de mama também afeta os homens, porém numa incidência extremamente menor. Para a mulher, a mama remete ao feminino, à beleza, à maternidade, à força, por isso esse câncer é tão agressivo, porque mexe com questões físicas e emocionais. Graças à Comunicação, a voz das mulheres mastectomizadas tem sido fortalecida; também graças às novas gerações de mulheres, que são maravilhosas, empoderadas e estão ajudando a ressignificar nossa relação com o corpo e os direitos femininos. Temos muito a aprender com elas, que trazem consigo as experiências das gerações anteriores, de mulheres que se dispuseram a lutar por nossos direitos. Creio que os enfrentamentos dependem de como você encara a vida. O câncer é mais um alerta do organismo. A maneira como lidamos com a situação faz toda a diferença em tudo o que fazemos: ter fé é não dar espaço para dúvidas. Você tem a opção de se manter no sofrimento e ampliá-lo ou de acreditar que pode ser passageiro, por mais difícil que seja, e transformar a experiência em história. A conexão entre corpo, mente e espírito são importantes para uma vida equilibrada, embora nem sempre seja tão fácil praticar quanto é aconselhar. É um exercício diário que requer dedicação. E se você tem alguém próximo passando pelo câncer e não sabe o que fazer ou dizer, apenas se coloque à disposição e assim permaneça. Diga que está junto, ao lado, para o que a pessoa precisar. Isso serve também para uma simples gripe ou outras doenças graves, como a depressão, que é tão sofrida, perigosa. A pandemia nos mostrou a falta que faz o abraço. Abrace, seja generoso, agradável, conte histórias alegres, acompanhe boas notícias (não traga desgraças para dentro de casa), não lamente a situação, seja verdadeiro e jamais menospreze a dor do outro dizendo que logo vai passar ou que tanta gente passa por isso. Para cada um, seu caminho único. Esteja atento e presente, as pessoas dão sinais, ouça e acolha, inclusive quando houver o silêncio. Acompanhe, se puder, a uma consulta, exame, leve uma comidinha gostosa, dê um telefonema de apoio, transmita amor em sua voz, pare um pouco apenas para ouvir e, se ainda não souber o que fazer, pergunte qual a necessidade do outro. Você que está vivendo essa experiência, viva o momento de forma atenciosa, cuidando dos detalhes. Cante, brinque com você, se curta, se cuide, não se cobre por nada, nem por algum fracasso, descanse. Leia, ouça músicas e veja programas alegres, coisas positivas. Olhe-se no espelho e se admire. As coisas mudam, a vida é surpreendente. Não duvide.


Imagem: Arquivo pessoal

UMA ALEGRIA

“Abrir os olhos: um novo dia é uma nova chance para escrever o melhor da nossa história”.


UMA TRISTEZA

“O preconceito em todas as suas formas. As pessoas podem escolher amar, compreender, acolher ou tolerar, mas o caminho do desafeto parece que tem sido mais comum”.


MAIOR REALIZAÇÃO

“Observar o desenvolvimento pleno da minha filha, que se transformou numa mulher incrível, um ser humano admirável e isso tem relação com as referências que recebeu da família, então essa é minha grande realização – e essa boa sorte desejo a todos os pais, mães ou responsáveis pelo desenvolvimento de uma pessoa”.


SERVIÇO

Contato e redes sociais de Daniele Ricci: Instagram - @daniielericci; Facebook -@daniielericci; Linkedin - @danielericci. E-mail: danica.ricci@gmail.com . Blog: https://bloglinhanapipa.blogspot.com/ . Site: https://daniricci.wixsite.com/dr2c (em reconstrução).




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